June 16, 2020

Cultura do orgulho da privação de sono

https://unsplash.com/@dcarock

Se você já compartilhou uma foto ou status contente por já estar no batente às 5h da manhã depois de ter trabalhado até tarde no dia anterior, você precisa ler este texto até o fim. E se conhece alguém que sempre diz que trabalha muito e dorme pouco, manda o link agora!

Podemos até não nos darmos conta, mas muitos de nós estamos sendo contaminados pela cultura do orgulho da privação de sono. Sem perceber, muitas vezes incorporamos a lógica da hiperprodutividade e de que muitas coisas são mais importantes que dormir. A lista é grande: trabalho, estudo, atividade física, família, amigos, viagens… Dormir para quê? {Para viver, oras!} Sem uma boa noite de sono você não vai estar na sua melhor forma em nenhuma destas atividades. E o pior: ainda vai adoecer. 

Fazer o dia render

 A ideia de que quem dorme menos ganha horas para aproveitar durante o dia está na moda. Isso pode ser visto na cultura de alguns grupos, como, por exemplo, o chamado 5am Club, movimento muito difundido entre investidores e empreendedores que costumam acordar muito cedo para fazer o dia render mais. 

O problema dessa prática é, muitas vezes, ela é acompanhada da diminuição do número de horas de sono. É simples: quem acorda muito cedo também precisa dormir muito cedo. Se essa condição é respeitada, o corpo funciona bem e a pessoa rende, mas nem sempre é isso que acontece.

"Muita gente diz: 'Trabalhei até às dez da noite, e estou aqui às 6 da manhã pedalando'. Isso é enobrecer o que não é saudável. Privação de sono é gatilho para doenças físicas e mentais", afirma Taline Costa, médica do esporte da Alice. 

Essa é uma questão que preocupou muito o americano Jonathan Crary, professor da Universidade de Columbia. Em um de seus ensaios, o “24/7: Capitalismo tardio e os fins do sono”, ele afirma que a última barreira que o capitalismo ainda tenta derrubar é a do sono. Isso porque ainda não somos máquinas de produção infalíveis, e a necessidade de dormir independe da vontade própria ou dos desejos sociais e econômicos. 

Sim, deixar dormir mesmo sob o nobre pretexto de trabalhar, ler ou praticar exercícios físicos é uma péssima ideia. Durante o sono, o organismo passa por diversos processos, como a restauração dos tecidos, o aumento da massa muscular e a liberação do hormônio do crescimento. Há ainda a consolidação da memória e do aprendizado. 

Impactos da privação do sono

Nunca se esqueça: a média de horas de descanso indicada pelos especialistas para uma pessoa adulta é de 7 a 8 horas, levando em conta características individuais. 

Se os benefícios do sono podem não soar tão óbvios, as consequências da privação de sono estão na cara no dia seguinte: olheiras, cansaço e sonolência ao longo das intermináveis horas no trabalho {uma hora a bateria acaba}. Dormir mal interfere em todas as atividades do dia a dia pois impacta diretamente a função cognitiva: memória, atenção, linguagem e percepção. Ou seja, tudo fica inexplicavelmente mais difícil ou impossível se não dormimos o suficiente.

Você já deve ter ido trabalhar alguma vez após uma péssima noite de sono. Reparou em como isso impactou o seu rendimento? Além da atenção, linguagem e percepção, a própria atividade cerebral decai e o controle motor diminui {sono também é alimento}. 

Ah, e não podemos esquecer da irritabilidade! Já cruzou por aí com alguém que dormiu muito mal ou muito pouco? {Deus me livre!} Pois é, quando isso acontece, precisamos ter muita paciência, pois essa pessoa provavelmente estará super irritada. As possíveis dores de cabeça podem ajudar no processo de raiva.

E se você acha que quem pratica atividades físicas vai se safar dessa, se enganou. Os atletas de academia, crossfit ou qualquer outra atividade têm sua força muscular, flexibilidade e potência reduzidos quando dormem menos do que deveriam. “A melhora do sono, em quantidade e qualidade, aumenta performance esporte”, aponta Taline.

Segundo aponta pesquisa liderada pelo médico do esporte Mathew Milewski e publicada no Journal Pediatric Orthopedics, os atletas que dormem menos do que 8h por noite também têm maior risco de lesão.

A médio prazo, os riscos são ainda mais definitivos: dormir mal ou dormir pouco eleva o risco de transtornos psiquiátricos, como estresse, ansiedade e depressão; doenças cardiovasculares, como hipertensão, diabetes tipo 2 e obesidade; além de doenças agudas respiratórias.

Pois é, a vida é moderna, mas o nosso relógio biológico continua o mesmo de sempre. Bora recarregar nossas energias? {Bons sonhos!}  

FONTES: